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Devaneios de uma morena

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa. Um companheiro para todos os dias, a qualquer hora que seja.

Infelizmente o fim do Ballet Gulbenkian faz anos...

 

 

 

 

Como disse mais cedo, hoje faz dez anos que a cultura portuguesa – sobretudo a área da dança – ficou incontestavelmente mais pobre.

 

Provavelmente é do conhecimento de uns, outros puderam dar conta disto num jornal qualquer durante o dia de hoje, outros ficarão somente agora a saber, mas foi em 2005 que puseram fim ao BG (Ballet Gulbenkian), uma companhia com, na altura, quarenta anos.

 

Para quem não sabe, o Ballet Gulbenkian foi uma companhia portuguesa de dança criada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Esta companhia fez mais de mil espetáculos durante o seu tempo de existência, quer no nosso país quer no estrangeiro. Honestamente, aceito que não se conheça detalhadamente a companhia, mas parece-me quase impossível que nunca dela se tenha ouvido falar.

 

Hoje, passada uma década, os bailarinos e coreógrafos do BG utilizam expressões como «um vazio enorme» para descrever a marca que a extinção da companhia provocou em si. Mas acho que passa ao lado de muita gente que não foi apenas para os bailarinos e coreógrafos da companhia que o fim do BG significou uma lamentável perda: também para nós, pessoas ditas normais, teve esse significado. Também nós ficámos a perder, afinal é a cultura do NOSSO país. E mais: o fim desta companhia acaba por ser também sinónimo de retrocesso.

 

Embora tudo o que gira em torno desta situação seja mais evidente para uns do que para outros, não posso deixar de considerar que pôr fim a algo que tanto nos valorizava a nível cultural e que, para além disso, se traduzia em postos de trabalho, foi um erro 2 em 1. Conseguiu fazer-se com o que o nosso país descesse uns quantos patamares no campo da cultura, perdendo-se assim uma parte tão significativa do que era a dança em Portugal, já para não falar nas pessoas que, tendo sido escorraçadas, acabaram por ficar no desemprego ou viram-se obrigadas a emigrar. 

 

O que acaba por me chocar mais, no entanto, são as explicações apresentadas, os motivos que levaram à extinção da companhia. O objetivo da Fundação passa a ser apoiar companhias independentes uma vez que o panorama da dança em Portugal se mostrava diferente, ajudando essas companhias a resistir e subsistir. E para isso acabam com uma companhia que, estando ou não numa fase mais complicada, já tinha uma história (e uma boa história) atrás de si? Não consigo compreender.

 

O que aconteceu faz-me sentir muito mais que pena. Fico extremamente desiludida com um país que acaba por se desvalorizar com estas tentativas de mudanças para melhor que acabam sempre por ser «tiros ao lado». Fico revoltada porque olho à minha volta e não vejo essas companhias independentes singrarem tanto quanto se desejaria e, tendo em conta as circunstâncias, seria de esperar. Fico triste porque para um bailarino a dança não é um trabalho qualquer. Tenho a certeza de que não o encara da mesma forma que um farmacêutico ou engenheiro olharia para o seu trabalho (não desvalorizando estas duas últimas profissões). O bailarino, à partida, e não contando com eventuais azares, só pode ser feliz. Afinal, qualquer pessoa que se apaixone verdadeiramente pela dança (ou por qualquer outra coisa), seja ela qual for, deseja um dia, como se costuma dizer, «fazer disso a sua vida». E estas pessoas conseguiram fazê-lo e, de um dia para o outro, deixaram-nos desprotegidos, desamparados, sem o seu ganha-pão. 

 

E desde aí não se veem tantas melhoras assim. Os bons vão e nunca mais voltam. Não voltam porque não há condições para que voltem; o mundo fora daqui, para eles, torna-se muito mais promissor e irresistível.

 

Na dança (a tempo inteiro), em Portugal, quase só mesmo em «modo de sobrevivência». Há aquelas pessoas que cultivam, nas terras, para que com os frutos do seu trabalho possam sobreviver; e é o que se passa com os bailarinos por aqui. Dançam todo o santo dia, morrem de dores, trabalham e trabalhame trabalham, trabalham sobretudo para nós – que os vemos, que somos o seu público, para quem dançam, a quem se entregam – para sobreviverem, provavelmente com ordenados absolutamente ridículos. 

 

Entristece-me a pouca importância que os menos familiarizados com a dança lhe dão. Que não sintam a falta que a dança faz. Que não sintam pena pela pobreza cultural que se vai vivendo de um modo geral. Será que não lhes diz nada? Será que é assim tão diferente o impacto que um bom cantor tem de um bom bailarino? 

 

Despeço-me com uma sugestão: para quem não esse «relaciona» habitualmente com a dança pode sempre investir numa pesquisa no youtube para conhecer o Ballet Gulbenkian ou a Companhia Nacional de Bailado, ou qualquer outra companhia mundial. Outros podem preferir uma experiência in loco, podendo aproveitar o espetáculo de homenagem ao legado do Ballet Gulbenkian, a decorrer entre 12 e 19 de março, em Lisboa.

 

É preciso que o interesse e gosto pela dança sejam gradualmente cultivados na generalidade das pessoas. É preciso mostrar-se que realmente vale a pena pagar para ir ver alguém dançar, tanto quanto se paga por um bilhete para o futebol. É preciso dar-se valor aos bailarinos e coreógrafos do nosso país. É preciso não nos esquecermos que, outrora, já se apagou uma parte demasiado importante desta maravilhosa arte e tão árduo desporto. É preciso que cada um, à sua maneira, dê o seu contributo. Isto fará de nós um país culturalmente mais rico e, inevitavelmente, mais feliz. Rememos contra a maré. Todos. Pela dança, pelos bailarinos, mas sobretudo por todos nós.

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Obrigada. Aos bailarinos, que nunca deixem de sonhar, que nunca desistam. A nós, o resto dos portugueses, que não deixemos que tenham de parar de sonhar.

Raquel

 

Deixo-vos alguns links interessantes do BG, CNB e bailarinos portugueses que brilham por aí fora.  A esses, os meus parabéns!

 

https://www.youtube.com/watch?v=RKoolSo1OBQ

https://www.youtube.com/watch?v=6RRgs8NiduA

https://www.youtube.com/watch?v=M55zyu-AD0A

https://www.youtube.com/watch?v=drKaQaeYN4A

https://www.youtube.com/watch?v=_npN-btFGJo

 

PS: Hoje fui extensa demais...mas foi uma necessidade. Há coisas sobre as quais não posso calar-me. 

 

 

 

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